we can do whatever we want
We can do whatever we want, dizíamos. Fomos de café passado no filtro de plástico para English Breakfast com leite. Os dois, às vezes. Sair correndo ladeira abaixo seminua com seu casaco dupla-face vermelho e azul. Ele é feito para o frio de Nova York, dizia. Te ver entrando no mar com a coragem do Gato Felix. Posso fazer o que eu quiser quando o charuto chinês e o Palo Santo queimam no pires de cerâmica do café vegano. Lembra quando você passava de terno só para me dar um beijo? Eu retibuia com um copo de chocolate quente. Denso e picante. Seriam essas cortesias que fizeram o café falir? Faliu por quê? Excesso de amor. Não se pode colocar pétalas secas na espuma do leite para sempre. I can do whatever I want. Pensei, quando cheguei engravatada às duas da manhã de uma terça-feira com um pote cheio de queijo. Eu nunca fui Felix e só sei entrar de mansinho. Me torturo a cada milímetro de água salgada. Gosto de ver a alma gelada subindo com meus pelos. Arrepiados. Quando sozinha, mantenho a discrição. Em dupla, gosto do escândalo. Na selva de pedra me sinto como no milésimo de segundo em que mergulho a cabeça no mar de agosto. Explosão! Lembra quando fazíamos jogo do sério ao entrar no mar gélido de agosto? Eu ainda tenho tentado. Mas estamos em maio e o êxtase molhado do caminhar na areia com seu casaco para o frio de Nova York não chega nunca. Can we do whatever we want? Eu não sou fumante e sigo tragando a fumaça do seu cigarro de cravo. Quero encher o peito todinho desse vazio. Você esqueceu a carteira quase completa, só sobraram dois: a dupla que consagrou o nosso fim. Acontecemos como eles, com o desejo pelo atrito, o ato que rompe a solidez do corpo, nos consumimos com sede, tanta sede, que não percebemos a rapidez do desgaste, chegará o temido fim, fino como um papel e descobrimos a mentira do filtro ao queimarmos a boca. Lembra do beijo molhado que antecedia meu pulo na sua garupa? Hop Hop Little Bunny. A porra do capacete não entendia minha urgência em sentir o cheiro do dia vivido grudado no seu pescoço. Ontem você não entendeu qual é a espessura de uma linha tênue e fez de nossa corda bamba um trapo rasgado. Pela janela, te assisti partindo e cai quando li nos lábios do porteiro o “até breve”. Um dia, se puderes, me escreva, e me conte, qual momento marcou sua queda? Vou guardar os últimos dois cigarros na gaveta ao lado da minha cama. Eu não quero me esquecer que a queda não é livre.


